Imagine ser mulher na Palestina do primeiro século. Sua palavra não tem valor jurídico — você não pode testemunhar em tribunal. Você não tem acesso ao estudo da Torá. No templo, fica confinada ao átrio das mulheres, longe do Santo dos Santos. Na rua, um rabino piedoso desvia o olhar para não se contaminar com sua presença. Há inclusive uma oração rabínica da época em que o homem agradece a Deus por não ter nascido mulher.
Esse era o mundo que Jesus encontrou. Um mundo em que a mulher existia nas margens — útil para a reprodução e para o trabalho doméstico, mas sem voz, sem lugar, sem dignidade publicamente reconhecida.
Dois milênios se passaram. O que mudou? Muita coisa, é verdade. Mas a dor continua. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo. Registramos um feminicídio a cada seis horas. Uma em cada quatro mulheres brasileiras já sofreu alguma forma de violência doméstica. E não estamos falando de estatísticas abstratas — estamos falando de nomes, de rostos, de mulheres que vivem ao nosso redor.
O sexismo não mora apenas nas ruas e nos lares violentos. Ele opera nas estruturas, nas culturas, nas instituições — inclusive nas igrejas. Opera quando uma mulher é reduzida a servir café mas nunca convidada a falar. Opera quando, diante de uma denúncia de violência, a resposta é “ore mais, irmã”. Opera no silenciamento sistemático das vozes femininas.
Se Jesus rompeu com a cultura de opressão do seu tempo, que postura a igreja que carrega o seu nome assume diante da opressão do nosso?
1. Jesus vê quem a sociedade ignora
Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. […] A mulher samaritana lhe disse: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?
João 4:7,9
Jesus está sentado junto ao poço de Jacó, em Sicar, território samaritano. Uma mulher chega para tirar água. O texto diz que era “por volta da hora sexta” — meio-dia. Ninguém buscava água ao meio-dia, sob o sol escaldante. As mulheres iam de manhã cedo ou no fim da tarde, em grupo. Essa mulher ia sozinha, no horário mais inóspito. Porque era evitada. Porque a comunidade a havia isolado.
Ela carregava uma tríplice exclusão. Era mulher — numa sociedade patriarcal. Era samaritana — os judeus não se relacionavam com samaritanos, considerados heréticos e impuros. E tinha uma história pessoal complicada — cinco maridos anteriores e vivia com alguém que não era seu marido. Aos olhos da sociedade religiosa, era tríplice indigna.
E o que Jesus faz? Ele a vê. Não desvia o olhar. Não muda de caminho. Toma a iniciativa e fala com ela. Mais que isso: pede algo a ela. “Dá-me de beber.” Coloca-se em posição de necessidade diante dela. Não chega como superior — começa criando um espaço de igualdade, de troca.
A pergunta que fica para nós é direta: quais são os poços de Sicar ao nosso redor? Onde estão as mulheres que ninguém mais vê? Na periferia, na fila do posto de saúde, na igreja que manda a mulher agredida voltar para casa e orar mais? Ver como Jesus via é um ato ao mesmo tempo político e espiritual.
2. Jesus dialoga com profundidade e respeito
Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
João 4:10
O diálogo que se segue é uma das conversas teológicas mais profundas de todo o Novo Testamento. E com quem Jesus escolhe tê-la? Não com Nicodemos, o mestre de Israel. Não com os discípulos. Com uma mulher samaritana, marginalizada, de história complexa.
Jesus fala com ela sobre água viva, sobre adoração em espírito e em verdade, sobre a natureza de Deus. E então chega ao clímax: ela menciona o Messias, e Jesus declara: “Eu o sou, eu que falo contigo” (João 4:26). É a primeira vez nos Evangelhos que Jesus se revela explicitamente como o Cristo. E o faz não diante do Sinédrio, não no Templo de Jerusalém, mas diante de uma mulher rejeitada, num poço em Samaria.
Isso não é acidental — é teologicamente intencional. Jesus está dizendo, com esse gesto, que o Reino de Deus não funciona pela lógica da exclusão. A revelação mais preciosa é entregue a quem o mundo considerava a menos digna de recebê-la.
Reparem também: Jesus não a trata com condescendência. Não simplifica o discurso porque ela é mulher. Trata-a como interlocutora plena, capaz de compreender verdades profundas. Ele a dignifica pelo diálogo, não pela bajulação.
Quantas comunidades cristãs ainda hoje fazem o oposto? O machismo estrutural segue operando em muitos espaços religiosos: nos púlpitos que se fecham, nas teologias que silenciam, nos aconselhamentos pastorais que dizem a uma mulher agredida para “se submeter” e “orar mais”. Isso não é aconselhamento bíblico — é cumplicidade com a violência.
3. Jesus transforma e vocaciona
Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?
João 4:28-29
A mulher larga o cântaro. Tinha ido buscar água — sua necessidade básica, cotidiana. Mas o encontro com Jesus mudou tudo. Ela larga o que a levou até ali e corre para a cidade. E o que faz? Anuncia. Testemunha. Evangeliza.
Reparem: ela volta à mesma cidade que a havia marginalizado. Fala com os mesmos homens que provavelmente a julgavam. E o texto diz que “muitos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher” (João 4:39). Ela se torna a primeira evangelista de Samaria. A excluída se torna a porta de entrada do evangelho para uma cidade inteira.
Jesus não apenas restaura — ele comissiona. Não a mandou de volta para casa com uma bênção e um conselho. O encontro com Cristo gera missão, vocação, protagonismo.
E esse é um ponto que precisa ser dito com todas as letras: a restauração que Jesus oferece não é conformidade com um sistema opressor. Nunca foi. É libertação. A mulher transformada por Cristo não precisa aceitar violência como “cruz a carregar”. Cruz é o sofrimento que escolhemos por amor ao próximo e por causa do evangelho — nunca o sofrimento imposto por um agressor.
A igreja precisa parar de espiritualizar o abuso. “Deus vai mudar ele” não pode ser a resposta para uma mulher com a vida em risco. A resposta bíblica é proteção, justiça e cuidado.
4. Jesus integra mulheres em sua missão
E aconteceu, depois disto, que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus; e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena […] e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens.
Lucas 8:1-3
Lucas registra algo extraordinário. No ministério itinerante de Jesus, mulheres caminham com ele. Não nos fundos, não a distância, não escondidas — junto com os doze. Isso era impensável no contexto judaico do primeiro século. Nenhum rabino permitia mulheres em seu grupo de discípulos.
E Lucas faz questão de registrar nomes: Maria Madalena, Joana, Suzana. Num mundo onde mulheres eram anônimas, Lucas as nomeia. Esse gesto literário é também um gesto teológico: elas têm identidade, têm história, têm dignidade.
O texto diz que elas “o serviam com seus bens” — o que significa que sustentavam financeiramente o ministério de Jesus. Joana era mulher de Cuza, procurador de Herodes, uma mulher de influência e recursos. Essas mulheres não eram coadjuvantes. Eram protagonistas da missão.
E se avançarmos nos Evangelhos, veremos que foram as mulheres que permaneceram ao pé da cruz quando os discípulos fugiram. Foram as mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição. O evangelho, do início ao fim, tem as mulheres como testemunhas e participantes centrais.
Se Jesus incluiu mulheres no centro da sua missão, a igreja não pode ser espaço de exclusão. Inclusão real não é deixar a mulher participar do coral ou organizar o chá de fraldas. Inclusão real é acesso a espaços de decisão, de ensino, de liderança, de fala.
A responsabilidade profética da igreja
Diante de tudo isso, a igreja não pode se dar ao luxo do silêncio. A neutralidade, neste caso, é cumplicidade. Se Jesus confrontou a opressão do seu tempo, a comunidade cristã precisa confrontar a do nosso.
Isso passa por pelo menos três compromissos concretos.
Compromissos da igreja com as mulheres
Ser voz
Denunciar a violência de gênero como pecado estrutural, não como ‘problema de casal’. Feminicídio não é tragédia passional — é o resultado final de uma cadeia de violências que muitas vezes foi ignorada. A igreja precisa falar sobre isso: do púlpito, nas classes, nos espaços de formação.
Ser refúgio
A igreja deve ser lugar seguro para mulheres em situação de vulnerabilidade. Isso significa ação concreta: orientação jurídica, encaminhamento à rede de proteção, acolhimento emocional, acompanhamento real. Uma mulher que denuncia violência não pode ser tratada como ‘causadora de problemas’.
Ser fermento
Jesus disse que o Reino é como o fermento que uma mulher mistura na massa até que tudo fique levedado. Nem toda comunidade cristã comprometida com a justiça será grande ou visível. Mas fermento é pequeno — e transforma de dentro. Cada vez que uma mulher prega num púlpito, é um anúncio.
Para não esquecer
Jesus não foi neutro diante da opressão das mulheres no seu tempo. Não ficou em silêncio. Não se conformou com o sistema. Confrontou, rompeu, incluiu e vocacionou.
No poço de Sicar, viu uma mulher que todos ignoravam. Conversou com ela com profundidade e respeito. Transformou-a de excluída em evangelista. No seu ministério itinerante, integrou mulheres como participantes centrais da missão do Reino.
A igreja que carrega o nome de Cristo não tem o direito de ser omissa. Seguir Jesus é também lutar para que nenhuma mulher seja invisível, silenciada ou violentada — nem no mundo, nem dentro dos templos.
Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
Gálatas 3:28

