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Intolerância Religiosa: um desafio à fé cristã no Brasil

Defender a liberdade de crença do próximo, seja ele de qual religião for, é defender a imagem de Deus que habita em cada ser humano. O fundamentalismo que ataca não fala em nome de Jesus.

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Pessoas de diferentes tradições religiosas — Candomblé, Cristianismo, Islamismo e Judaísmo — unindo as mãos em gesto de solidariedade e respeito mútuo

Hoje, 21 de janeiro, o Brasil marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi criada em memória da Iyalorixá Mãe Gilda, de Salvador, que faleceu no ano 2000, vítima de um infarto após ter seu terreiro e sua honra atacados por fundamentalistas. A dor de Mãe Gilda, no entanto, não é um caso isolado. Ela representa a dor de milhares de brasileiros que têm sua fé desrespeitada e violentada todos os dias.

Para nós, cristãos, a luta contra a intolerância religiosa não pode ser uma pauta “dos outros”. É um imperativo do nosso próprio Evangelho. Defender a liberdade de crença do próximo, seja ele de qual religião for, é defender a imagem de Deus que habita em cada ser humano. Este artigo é um convite para refletirmos sobre o crescimento do racismo religioso no Brasil e sobre como o fundamentalismo que persegue e ataca não fala em nome do Jesus que seguimos.

Racismo Religioso: Os Números da Vergonha

A ideia de que o Brasil é um país tolerante é um mito perigoso. Apenas 28% dos brasileiros percebem o país como tolerante em matéria de religião. A realidade, exposta em números, é alarmante e tem cor e endereço definidos.

Entre 2024 e 2025, o Ministério dos Direitos Humanos registrou mais de 8 mil violações por intolerância religiosa no país. A maioria esmagadora das vítimas era praticante de religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé. O discurso de ódio nas redes sociais também explodiu, com um crescimento de 522% nos casos de intolerância religiosa durante o período eleitoral de 2022.

É por isso que pesquisadores e lideranças preferem usar o termo racismo religioso. Como explica a pesquisadora Ana Paula Miranda, da UFF, não se trata de uma “mera discordância”, mas de um projeto de eliminação do outro que tem raízes na estrutura racista da sociedade brasileira. O silêncio de muitos, inclusive de muitas igrejas cristãs, permite que essa violência continue.

Eu não gosto, não concordo e eu vou tirar você deste lugar. Eu vou eliminar você. (…) O que tá por trás desse processo é um cenário de agressão a uma tradição. Não é apenas à pessoa, mas um coletivo.

Ana Paula Miranda, pesquisadora da UFF

O Evangelho do Encontro: Jesus e a Fé do Outro

O fundamentalismo que ataca terreiros e demoniza a fé alheia passa longe do exemplo de Jesus. O Evangelho é um convite constante ao encontro e à quebra de barreiras.

Jesus, a Samaritana e o Bom Samaritano

Na famosa parábola do Bom Samaritano (Lucas 10), Jesus subverte a lógica do ódio entre judeus e samaritanos (inimigos religiosos da época) para ensinar que o “próximo” é todo aquele de quem nos aproximamos com compaixão.

No poço de Jacó (João 4), Jesus dialoga profundamente com uma mulher samaritana, considerada herege. Ele não a condena, não exige sua conversão, mas se revela a ela em um dos mais belos diálogos da Bíblia. Ele vê sua sede de Deus para além das fronteiras religiosas.

O Deus Maior que Nossas Igrejas

O apóstolo Paulo, ao chegar em Atenas (Atos 17), não destrói os altares pagãos. Pelo contrário, ele os observa e encontra um ponto de conexão — um altar “Ao Deus Desconhecido” — para iniciar seu diálogo. Ele reconhece que a busca por Deus é universal.

Esses exemplos nos ensinam que a graça de Deus não está confinada às paredes de nossas igrejas. O Espírito “sopra onde quer” (João 3:8). Reconhecer a beleza e a verdade na fé do outro não diminui a nossa, mas engrandece nossa visão de um Deus que é infinitamente maior que nossas doutrinas.

O Falso Deus do Fundamentalismo

É crucial entender que o fundamentalismo não é sinônimo de fé fervorosa. É um projeto de poder que transforma a religião em ideologia.

🚫 Recusa ao Diálogo

O fundamentalismo se fecha em certezas absolutas, recusando qualquer troca ou aprendizado com o diferente.

⚔️ Criação de Inimigos

Precisa de um ‘outro’ para demonizar e combater, seja ele de outra religião, orientação ou posição política.

👑 Busca por Poder Político

Usa a religião como instrumento para impor sua visão de mundo e conquistar espaços de poder na sociedade.

🪞 Deus à Imagem dos Preconceitos

Cria um ‘deus’ nacionalista, racista e patriarcal, que serve para justificar a exclusão e a violência.

Combater o fundamentalismo é, portanto, uma questão de fidelidade ao Evangelho. Onde Jesus acolheu, o fundamentalismo exclui. Onde Jesus dialogou, o fundamentalismo ataca. Onde Jesus serviu, o fundamentalismo busca dominar.

O fundamentalismo não fala em nome de Jesus!

Pastor Henrique Vieira

Da Tolerância à Celebração da Diversidade

Neste Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, somos chamados a ir além da mera “tolerância”. A meta não é apenas suportar o outro, mas celebrar a diversidade religiosa como uma expressão da infinita riqueza de Deus.

Que nossas igrejas se tornem espaços seguros para o diálogo inter-religioso. Que nossas vozes se levantem em defesa dos terreiros atacados. Que nossos corações se convertam do medo do outro para a alegria do encontro.

Que possamos, enfim, responder à pergunta “quem é o meu próximo?” com a mesma compaixão radical do samaritano, reconhecendo em cada pessoa, de cada fé, um irmão e uma irmã a quem devemos amar e proteger.

Referências

  • Agência Brasil. (2026, 21 de janeiro). Mais do que intolerância, racismo religioso é violência contra a fé.
  • Folha de S.Paulo. (2026, 15 de janeiro). Discurso de ódio contra nordestinos nas redes cresceu 821% na eleição de 2022, diz pesquisa.
  • Correio Braziliense. (2026, 21 de janeiro). Só 28% veem o Brasil como tolerante: por que a fé divide mais do que une.
  • Vieira, H. (2026, 18 de janeiro). O fundamentalismo não fala em nome de Jesus. Post em rede social.

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