O ano de 2026 começou com um terremoto geopolítico na América Latina. Em 3 de janeiro, uma intervenção militar dos Estados Unidos em Caracas resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. O evento chocou o mundo, mas a justificativa do presidente americano, Donald Trump, foi ainda mais alarmante: a retomada da Doutrina Monroe.
Para quem conhece a história do nosso continente, o recado foi claro. A Doutrina Monroe, criada em 1823, sempre significou a imposição dos interesses norte-americanos sobre a América Latina, tratando-a como seu “quintal”. Este evento não é um fato isolado, mas a mais recente manifestação de uma longa e dolorosa história de imperialismo.
Este artigo analisa a crise na Venezuela sob a ótica da fé, questionando qual deve ser a resposta cristã diante da violência imperial e do sofrimento humano que ela gera. De que lado estamos: do Império e sua lógica de dominação, ou do Deus que liberta os oprimidos?
O que é a Doutrina Monroe e seu Impacto na América Latina?
A Doutrina Monroe pode ser resumida em seu lema: “América para os Americanos”. Na prática, isso sempre significou “América para os Norte-Americanos”. Seu objetivo nunca foi proteger, mas sim garantir a hegemonia dos EUA na região, uma política externa que moldou o continente por duzentos anos.
A História do ‘Grande Porrete’
No início do século XX, a doutrina evoluiu para a política do “Big Stick” (grande porrete), que dava aos EUA o pretenso direito de atuar como uma “polícia mundial”. Isso justificou inúmeras intervenções militares para derrubar governos que não se alinhassem aos seus interesses.
A memória da América Latina está marcada por essa violência:
Golpe de 1964 no Brasil
Os EUA apoiaram a ditadura militar que durou 21 anos, um período sombrio de nossa história.
Derrubada de Allende no Chile (1973)
Washington deu suporte ao golpe que instaurou o regime brutal de Pinochet.
Intervenções em Cuba, Guatemala e Nicarágua
Ações diretas foram tomadas para proteger interesses econômicos e políticos dos EUA, muitas vezes em detrimento da democracia e dos direitos humanos.
A ação na Venezuela em 2026 não é uma novidade, mas a repetição de um padrão histórico de imperialismo que se recusa a morrer.
Uma Resposta Cristã ao Imperialismo: Voltar ao Evangelho
Diante da arrogância do Império, a fé cristã não pode ser neutra. A Bíblia é, em sua essência, uma contundente crítica a todo poder que se absolutiza e se coloca no lugar de Deus, desde o Faraó no Egito até o Império Romano no tempo de Jesus.
O Deus bíblico é o Deus que ouve o clamor dos escravos e os liberta.
E disse o Senhor: Certamente vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto, desci para livrá-lo.
Êxodo 3:7-8
Jesus, com sua pregação do Reino de Deus, oferece uma lógica radicalmente oposta à do Império: o serviço no lugar do poder, o amor no lugar da violência, a justiça para os pobres no lugar da opressão.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Mateus 5:9
É a partir dessa perspectiva que a Teologia da Libertação, ou ainda a Teologia da Missão Integral, ambas nascidas no solo sofrido da América Latina, nos ensinam a ler a Bíblia com os olhos dos oprimidos. A “opção preferencial pelos pobres” se torna o critério para nossa ação no mundo. Isso não significa defender um regime político específico, mas sim denunciar a violência imperial como pecado e defender a soberania e a dignidade do povo venezuelano.
Refugiados Venezuelanos: O Rosto Humano da Crise
Enquanto as potências jogam seu xadrez geopolítico, são os mais vulneráveis que pagam o preço. A consequência mais trágica da crise na Venezuela é o drama dos refugiados venezuelanos, uma crise humanitária que se agrava a cada dia.
Milhões já deixaram o país, enfrentando fome, doenças e xenofobia. Para a fé cristã, o refugiado não é um problema, mas um lugar sagrado. A Bíblia é uma história de migrantes, desde Abraão até a Sagrada Família, que foi refugiada no Egito para escapar da violência de um tirano.
Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos.
Hebreus 13:2
Acolher o estrangeiro é um mandamento. Em cada refugiado que encontramos, é o próprio Cristo que nos visita (Mateus 25:35). Em todo o Brasil, igrejas e ONGs confessionais têm sido faróis de esperança, oferecendo abrigo, comida e dignidade. Este é o testemunho mais poderoso contra a violência dos impérios.
Um Chamado à Ação: A Insurgência da Paz
A intervenção na Venezuela, justificada pela Doutrina Monroe, é um ato de imperialismo que não podemos aceitar em silêncio. A fé cristã nos chama a uma insurgência da paz: uma desobediência criativa e corajosa contra a lógica da guerra e da dominação.
O que podemos fazer?
- Denunciar
Falar abertamente contra a violência e o imperialismo em nossas comunidades e redes sociais. Não podemos nos calar diante da injustiça. - Acolher
Apoiar ou se envolver em iniciativas de acolhimento a refugiados venezuelanos. Um prato de comida, uma palavra de conforto, um auxílio jurídico: tudo faz a diferença. - Educar
Aprender e ensinar sobre a história da América Latina e as intervenções estrangeiras. A memória é a melhor vacina contra a manipulação.
Oremos e ajamos por uma América Latina livre e soberana, onde a paz seja fruto da justiça, não da imposição dos poderosos.
Referências
- The Intercept Brasil. (2026, 15 de janeiro). Por que a invasão da Venezuela é um alerta para 2026.
- BBC News Brasil. (2026, 15 de janeiro). Por que ação de Trump na Venezuela divide mundo em zonas de influência e projeta nova era global.
- Bowen, J. (2026, 15 de janeiro). Trump’s Venezuela move could set precedent for authoritarian powers. BBC News.

