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A Responsabilidade da Igreja no Enfrentamento à Violência Contra a Mulher

Em um país onde a fé é refúgio, os números alarmantes de feminicídio nos convocam a uma reflexão profunda sobre o papel das comunidades religiosas na proteção da vida das mulheres.

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Mulher em momento de reflexão e oração, simbolizando fé e proteção em comunidades religiosas

A fé é, para muitas mulheres brasileiras, um porto seguro. É nas igrejas, nas comunidades religiosas, que buscam consolo, orientação e esperança. Porém, os números de 2024 revelam uma realidade perturbadora: enquanto as mulheres recorrem à fé como primeira rede de apoio, o Brasil registra o recorde histórico de 1.492 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Entre as vítimas, muitas carregam consigo histórias de fé, de oração, de comunidades que deveriam protegê-las.

A questão que nos convoca é incômoda e necessária: se a Igreja é o primeiro lugar onde as mulheres buscam ajuda diante da violência, por que os números continuam a crescer? Estamos preparados para ouvir? Estamos dispostos a transformar nossa fé em ação?

Este artigo não pretende condenar a Igreja, mas convidá-la a um diálogo profundo e honesto sobre sua responsabilidade no enfrentamento à violência de gênero. Porque transformar a fé em cuidado ativo é uma urgência que não pode mais ser adiada.

Um Retrato da Dor: A Violência Contra a Mulher em Números

Para compreender a magnitude do desafio, precisamos olhar para os dados com clareza e compaixão. Os números não são abstratos; cada um representa uma mulher, uma família, uma comunidade dilacerada.

IndicadorDadoFonte
Feminicídios em 20241.492 (recorde histórico desde 2015)Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Média Diária4 mulheres assassinadasAnuário 2024
Taxa por 100 mil mulheres1,4Anuário 2024
Perfil Racial das Vítimas63,6% são mulheres negrasAnuário 2024
Faixa Etária Predominante70,5% entre 18 e 44 anosAnuário 2024
Local do Crime64,3% na residência da vítimaAnuário 2024
Instrumento Utilizado48,4% arma brancaAnuário 2024
Autoria: Companheiros60,7% dos casosAnuário 2024
Autoria: Ex-companheiros19,1% dos casosAnuário 2024
Violência Doméstica (2025)3,7 milhões de brasileiras sofreramDataSenado
Agressões com Crianças Presentes71% das vítimasDataSenado
Mulheres Evangélicas Vítimas42,7% das violênciasFBSP/Datafolha

Esses números revelam um padrão devastador: a violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas uma realidade sistêmica que atravessa classes sociais, regiões e comunidades religiosas. O fato de que 80% dos casos envolvem companheiros ou ex-companheiros indica que a violência ocorre no seio da intimidade, frequentemente em ambientes que deveriam ser de proteção e amor.

O dado que mais nos interpela é este: mulheres evangélicas representam 42,7% das vítimas de violência. Isso não é coincidência. Isso é um chamado.

Entre a Oração e a Omissão: A Corresponsabilidade da Igreja

A Igreja não criou o patriarcalismo, mas, historicamente, o legitimou. Através de interpretações literais e descontextualizadas de textos bíblicos, construiu-se uma teologia que, mesmo sem intenção explícita, reforçou a subordinação feminina como vontade divina.

A teóloga italiana Selene Zorzi, em seu artigo “O Escândalo da Violência Contra as Mulheres: Papel e Responsabilidade da Igreja”, oferece uma análise profunda dessa corresponsabilidade. Ela aponta como os textos de Gênesis 1-3, interpretados através de modelos antropológicos androcêntricos, criaram um imaginário coletivo que persiste até hoje, mesmo em sociedades que se emanciparam de uma cultura bíblica literal.

Existe uma corresponsabilidade da Igreja nessa mentalidade? A resposta é sim, e vários exemplos podem ser apresentados. Ao atribuir ao outro, isto é, à mulher, todo o mal, o homem se exime de sua própria responsabilidade. O resultado é uma perspectiva fortemente distorcida sobre Deus, sobre a mulher, sobre o homem, sobre as relações entre homens e mulheres.

Selene Zorzi

Um dos mecanismos mais sutis dessa corresponsabilidade é o que Zorzi chama de binário Eva-Maria. De um lado, a mulher perfeita, inatingível, virgem e mãe. Do outro, a pecadora, a responsável pela queda da humanidade. Nenhuma mulher real consegue ser Maria; portanto, todas são, em alguma medida, Eva. Esse binário funciona como uma coerção invisível, criando culpa, silenciamento e aceitação da violência como castigo merecido.

Quando uma mulher é agredida e ouve de um líder religioso que deve “orar mais”, “ter paciência”, “ser mais submissa”, ela não está apenas recebendo um conselho inadequado. Ela está sendo colocada de volta na narrativa de Eva, a culpada. Sua dor é reinterpretada como falta de fé, como desobediência.

Essa teologia do silenciamento é uma forma de violência institucional. E a Igreja, ao perpetuá-la, torna-se cúmplice.

“Vim para que Tenham Vida”: Um Chamado à Ação e ao Acolhimento

Mas há esperança. Há um caminho diferente. A mesma fé que foi usada para silenciar pode ser transformada em força para libertar.

Jesus disse: “Vim para que tenham vida, e vida em abundância” (João 10:10). Uma vida em abundância não é compatível com a violência, com o medo, com o silenciamento. É hora de a Igreja tomar essa promessa a sério e transformá-la em ação concreta.

Caminhos para uma Igreja que Protege

  1. Criar Ambientes de Escuta Segura
    As mulheres precisam de espaços onde possam falar sem medo de serem julgadas. Grupos de apoio confidenciais, canais de denúncia seguros, líderes treinados para ouvir com empatia e sem julgamento. Quando uma mulher chega à Igreja ferida, ela não precisa de sermões sobre submissão. Ela precisa de acolhimento, de validação de sua dor, de informações sobre seus direitos e sobre os serviços de proteção disponíveis.
  2. Teologia que Liberta, não que Aprisiona
    É urgente resgatar e amplificar uma teologia feminista que reconheça a dignidade e a igualdade da mulher como imagem de Deus. Estudos bíblicos que contextualizem os textos, que dialoguem com a história e com a realidade contemporânea. Pregações que denunciem a ‘teologia do domínio’ e proclamem uma ‘teologia do cuidado’, onde Deus é apresentado como protetor dos vulneráveis, especialmente das mulheres.
  3. Formação de Lideranças
    Pastores, padres, bispos e líderes religiosos precisam de formação específica sobre violência doméstica. Precisam saber identificar sinais de abuso, conhecer a Lei Maria da Penha, entender os fluxos de denúncia e proteção. Precisam ser capazes de diferenciar entre conselheiro espiritual e terapeuta, sabendo quando encaminhar uma mulher para profissionais especializados.
  4. Engajamento na Rede de Proteção
    A Igreja não está sozinha. Existe uma rede de proteção formada por delegacias especializadas, centros de referência, ONGs e políticas públicas. As comunidades religiosas precisam se conectar a essa rede, oferecendo sua capilaridade, sua confiança comunitária, seu poder de mobilização.
  5. Uma Voz Profética por Justiça
    Finalmente, a Igreja precisa usar sua influência para cobrar políticas públicas eficazes, para se posicionar publicamente contra o machismo e o feminicídio. Precisa ser uma voz profética que denuncia a injustiça, que questiona as estruturas que perpetuam a violência, que se coloca ao lado dos vulneráveis.

Em outubro de 2024, foi sancionada a Lei nº 14.994, que tornou o feminicídio um crime autônomo e elevou a pena de 12-30 anos para 20-40 anos de reclusão. Essa mudança legislativa é importante, mas não é suficiente. Prevenção, acolhimento, transformação cultural — essas são as respostas que a Igreja pode oferecer.

A fé não é um refúgio para fugir da realidade. A fé verdadeira é um chamado para transformar a realidade. É um convite para estar ao lado daqueles que sofrem, para questionar as estruturas injustas, para construir um mundo onde a vida das mulheres seja sagrada e protegida.

Os números de 2024 não são apenas estatísticas. São histórias de mulheres que buscaram ajuda e não a encontraram. São histórias de comunidades que silenciaram quando deveriam ter gritado. São histórias de fé que se tornou cúmplice.

Mas também são um chamado. Um chamado para que a Igreja seja diferente. Para que a fé se torne cuidado ativo, escuta genuína, ação profética.

Comece hoje. Converse sobre este artigo em seu pequeno grupo. Questione o silêncio. Ofereça escuta. Procure se informar sobre violência doméstica. Conecte-se com os serviços de proteção em sua região. Seja um instrumento de transformação.

Porque a fé que não transforma é fé que não salva. E o Brasil precisa de uma Igreja que salve, que acolha, que transforme.

Fé e outros diálogos: porque crer é também transformar.

Referências

  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2025). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024: Feminicídio bate recorde no Brasil em 2024.
  • Agência Senado. (2025). DataSenado: violência de gênero atinge 3,7 milhões de brasileiras. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher.
  • ISER. (2025). Agosto lilás: O que religião tem a ver com proteção das mulheres? Boletim 13/2025.
  • Zorzi, S. (2024). O escândalo da violência contra as mulheres: papel e responsabilidade da Igreja. Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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