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2025: O Ano que nos Interpela – Entre a Responsabilidade Cristã e a Contradição das Igrejas no Brasil

O ano de 2025 expôs um abismo entre o chamado do Evangelho à justiça, paz e cuidado com a Criação, e o posicionamento real de grandes segmentos da igreja cristã no Brasil.

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Cruz de madeira erguida sobre a floresta amazônica com raios de luz atravessando as nuvens, representando fé, esperança e responsabilidade ambiental

O ano de 2025 se encerrou deixando no ar um profundo paradoxo. Em um país onde mais de 80% da população se declara cristã, testemunhamos o avanço de pautas que contradizem princípios fundamentais do Evangelho – a defesa da justiça, o acolhimento dos vulneráveis, a promoção da paz e o cuidado com a Criação. Se a fé cristã autêntica se manifesta em atitudes de misericórdia e compromisso com o próximo e com o mundo, então o que dizer de uma igreja que, em sua maioria visível, calou-se diante das injustiças ou, pior, as legitimou?

Neste artigo, proponho uma reflexão que atravessa três eixos cruciais que marcaram o cenário brasileiro e mundial no ano que passou: a crise democrática, a urgência climática e os conflitos bélicos globais. Em cada um desses contextos, a fé cristã é interpelada. E em cada um deles, as respostas que emergiram das lideranças religiosas no Brasil revelaram mais silêncio, ambiguidade ou alinhamento com poderes opressivos do que profetismo corajoso.

A Democracia em Julgamento: Onde Está a Voz da Igreja?

Em 2025, o Brasil reviveu os fantasmas do passado ao ver ganhar força discursos que relativizam a violência política, celebram golpistas e atacam as instituições democráticas. O Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e a própria lisura do processo eleitoral foram alvo de ataques sistemáticos – muitos deles partindo de figuras que se apresentam como “defensores da família e dos valores cristãos”.

Jesus chamou seus seguidores de “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13-14). Ser sal é impedir a corrupção; ser luz é iluminar os caminhos tortuosos. Mas o que vimos foi, em grande parte, uma igreja que optou por ser sal insosso e luz escondida. Lideranças religiosas influentes permaneceram em silêncio constrangedor diante da tentativa de golpe em janeiro de 2023, cujos desdobramentos ainda ecoaram em 2025. Outros foram além: justificaram a violência, relativizaram atos golpistas e usaram púlpitos para pregar a “resistência” contra um governo democraticamente eleito.

Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.

Mateus 5:13-14

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu notas tímidas de defesa da democracia, mas sua voz não conseguiu fazer frente à avalanche de desinformação promovida por setores evangélicos alinhados com o bolsonarismo. Por sua vez, igrejas evangélicas de grande penetração popular se tornaram espaços de reprodução de fake news, de apoio a políticos investigados e de um discurso de guerra cultural que demoniza adversários políticos.

Onde está o profetismo de Amós, que não tinha medo de confrontar reis? Onde está a coragem de João Batista, que denunciou Herodes mesmo sabendo do custo? A igreja que se cala diante da injustiça torna-se cúmplice dela.

A Criação que Geme: A Igreja e a Urgência Climática

2025 também foi o ano em que Belém se preparou para receber a COP 30, a conferência climática mais importante já realizada na América Latina. A escolha da Amazônia como sede foi simbólica: o Brasil concentra a maior floresta tropical do mundo, cuja preservação é essencial para o equilíbrio climático global.

No entanto, paradoxalmente, o Brasil segue sendo um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, impulsionado pelo desmatamento, pela expansão do agronegócio predatório e pela mineração ilegal em terras indígenas. E onde estava a voz da igreja cristã brasileira nesse cenário?

Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.

Romanos 8:22

E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

Gênesis 2:15

Biblicamente, a vocação humana inclui guardar e cultivar o jardim (Gênesis 2:15). Paulo afirma que a criação geme, aguardando libertação (Romanos 8:22). Cuidar da terra não é uma pauta “progressista” ou “esquerdista” – é uma responsabilidade da fé.

Contudo, muitas lideranças evangélicas no Brasil se alinham abertamente com setores do agronegócio que promovem desmatamento e resistem a qualquer regulação ambiental. O discurso dominante associa a defesa do meio ambiente a um suposto “comunismo” ou “globalismo”, ignorando o clamor da terra e dos povos que dela dependem.

Por outro lado, a Igreja Católica, especialmente por meio da voz do Papa Francisco e da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica), tem se posicionado com mais clareza em defesa da Amazônia e dos povos originários. Mas essa voz ainda é minoritária no imaginário religioso brasileiro.

O Mundo em Guerra e o Deus dos Refugiados

Enquanto isso, o mundo assistiu em 2025 ao prolongamento de conflitos devastadores. A guerra na Ucrânia completou mais de três anos. Gaza continuou sendo palco de uma tragédia humanitária sem precedentes recentes. E o Sudão, quase invisível na cobertura midiática, vive uma das maiores crises de deslocamento forçado do mundo.

Jesus disse: “Bem-aventurados os pacificadores” (Mateus 5:9). Disse também: “Amai os vossos inimigos” (Mateus 5:44). O próprio menino Jesus foi refugiado, levado por sua família para o Egito fugindo da violência de Herodes (Mateus 2:13-15). A fé cristã, portanto, deveria ser uma força inequívoca pela paz e pela acolhida dos deslocados.

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. (…) Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam.

Mateus 5:9,44

E, tendo eles se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito.

Mateus 2:13

Mas o que vimos no Brasil foi um silêncio constrangedor. Poucas igrejas se pronunciaram sobre Gaza. Menos ainda se mobilizaram pela acolhida de refugiados. E quando houve discurso, muitas vezes ele se alinhou com leituras dispensacionalistas que instrumentalizam o Estado de Israel e ignoram o sofrimento palestino, reduzindo uma tragédia humana a uma suposta “profecia” que precisa se cumprir.

Onde está a compaixão pelo inocente? Onde está a dor pelo sangue derramado? Onde está a oração pela paz que não escolhe lados, mas chora por toda vida perdida?

Para Onde Caminharemos em 2026?

Diante desse cenário, o ano de 2026 nos interpela com urgência. Será a igreja cristã brasileira capaz de se reconectar com sua vocação profética? Será ela capaz de levantar a voz pela democracia, pela criação e pela paz – não por alinhamento ideológico, mas por fidelidade ao Evangelho?

É hora de redescobrir que a fé cristã não se reduz a cultos aos domingos, mas implica um modo de estar no mundo que confronta poderes injustos, acolhe os vulneráveis e cuida da terra. É hora de recuperar a tradição profética que marcou os profetas de Israel, os primeiros cristãos, os mártires da Reforma, os libertadores da América Latina.

2025 foi um espelho que refletiu nossas mais profundas contradições. Mas todo espelho também pode ser ponto de partida para transformação. Que 2026 seja o ano em que muitos cristãos decidam sair do silêncio conivente e erguer sua voz – não pela direita ou pela esquerda, mas pelo Reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17).

A pergunta que fica é esta: qual será a nossa resposta?

Referências

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